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domingo, 11 de setembro de 2011

A alquimista.

Não era a primeira vez que ia ao quintal e ficava sòzinha com um silêncio que podia preencher como bem quisesse- ler, ouvir música, pensar. Estar sozinha assim não era sentir-se só,nem triste. Este era o tipo de solidão que possuía o silêncio de prata,como pensava, porque silêncio de ouro seria o que proporciona indescritível prazer a duas pessoas que, mesmo estando quietas, conseguem sentir-se incrivelmente unidas. Mas, quando no silêncio de cor prateada ela experimentava o prazer de estar consigo mesma e encontrar-se com o que habitava dentro de si, então era como o alquimista ou feiticeira que sabe como transformar prata em ouro. Antigamente era no banho,ou na cama quando todos já dormiam, ou num momento de ociosidade como este,que lhe aconteciam as idéias criativas.
Agora,filhos criados, afastada das artes que antes faziam parte ativa de sua vida, não precisava mais criar, e escrevia, ou lia. Ou então, lembrava com saudades de alguém, ou sonhava. Era dona de si e destes seus momentos.E como isto era bom! Podia até mesmo apenas respirar. Deitada num colchonete no chão, mãos postas em concha sôbre os olhos e depois no peito, apenas respirava. Assim, meditava. No movimento da respiração se deixava levar para dentro de si ou voava por sensações que depois não sabia como descrever em palavras.
Estes rápidos momentos traziam no final uma nostalgia,como se fizessem parte de uma despedida de algo bom.
O sol se punha às suas costas. Hoje ela sentara ali para um momento de leitura, mas logo percebeu que precisava escrever. Os pardais vinham cantar ao seu redor as últimas canções do dia. Andorinhas logo viriam agitadas, procurar seus ninhos no telhado. Mais alguns minutos e, ao olhar para o céu, veria os patos vindos do sul voando para a direção oposta. Como sabiam que deveriam voar naquela formação que desenhava duas imensas asas no céu? Asas iguais as que a levavam àquela quietude interna.
Tudo parecia tão natural e agradável naqueles momentos que ela sentia fazer parte do ritmo que pulsava na natureza ao seu redor, obedecendo ao tempo do instinto e não do relógio. Tudo parecia tão perfeito e calmo,que era até um pouco triste. Despedidas sempre o são. O sol já desaparecia atrás do sobrado do outro lado da rua. As maritacas que gritavam na amoreira aquietaram-se.
Então, ela pensou nele.Tudo só seria mais perfeito se ele viesse e lhe desse um beijo, como ela gostava de beijar quando sentia-se assim repleta de si ou daquela tranquilidade. Ele não veio. Talvez porque os homens não percebam o risco que é viver sempre a um passo de uma despedida. Talvez porque eles só percebam que a noite chegou quando alguém não acende a luz para eles.
Ah! mas ela percebia e tinha o jarro de seu coração, tantas vezes pronto para transbordar o que não podia caber só em si, mesmo às custas de saber que a cada dia, pode haver despedidas...e a cada beijo também.
Texto e fotos:Vera Alvarenga

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